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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2008, 15

15.06.08

E AGORA, JOSÉ? (Parte 2)

CULTURA

www.sacredsound.com.br

Figura apagada, o pai de Jesus Cristo vai desaparecendo discretamente dos registros bíblicos, a ponto de o leitor virtualmente esquecê-lo, apesar dele ter desempenhado um papel importante na infância de seu filho.
Na primeira parte desta série, postada neste blog (no dia 12/06) e intitulada "E AGORA, JOSÉ?" numa alusão ao grande poeta Drummond, vimos que uma possível razão para esse sumiço de José teria sido sua morte prematura, antes do começo do ministério público de Jesus. 'Prematura', no caso, é modo de falar, pois de acordo com a tradição apócrifa disponível, José era um homem idoso ao se casar com Maria.
A seguir, examinaremos outra explicação, enquadrando o Mestre judeu e sua família no quadro social da época.

Um sistema de clãs

Na antiga pátria dos judeus, a sociedade era muito diferente da que estamos acostumados. As pessoas estavam inseridas em clãs, sob o qual se agrupavam a família imediata e também o círculo de parentes mais distantes, além de outros habitantes do mesmo lugar. Isto se nota nos evangelhos, onde aparecem não somente os irmãos de Jesus, mas também seu tio Cleófas e esposa, discípulos próximos, mulheres devotas, etc. Isso é coerente com o quadro social da época: indivíduos mergulhados dentro de uma comunidade que os protegia e conferia-lhes identidade.
A aldeia ou o clã exercia um controle sobre os seus membros, em troca de fornecer-lhes segurança e um sistema de referência firme para as decisões que cada um teria de tomar, na vida. Assim, era normal um jovem aprender a profissão de seu pai, por exemplo. Portanto, o retrato de Jesus como sendo "o filho do carpinteiro" (como se lê no evangelho de Mateus) é coerente com a anotação de Marcos de que o próprio Cristo era carpinteiro. (Compare-se Marcos 6:3 com Mateus 13:55).

O rompimento

Como um judeu típico, Jesus cresceu no seu pequeno clã familiar, constituído de pais, irmãos e amigos de sua cidade de Nazaré. Uma aldeia agrícola, de não mais que quinhentos habitantes, Nazaré era um vilarejo palpérrimo da Galiléia, na parte norte da Palestina. Nesse local desprezado até pelos próprios judeus, viveu um adolescente que mudaria o mundo e as vidas das pessoas. E como ele fez isso? Bem, tudo começou quando esse homem abraçou sua vocação missionária e saiu pelos caminhos da Galiléia a pregar as boas novas do reino de Deus, quando andava na casa do trinta anos. Para tanto, porém, ele teve de pagar um preço muito alto: o rompimento com os laços familiares.
O evangelho de Marcos (3:21-35) conta que, certo dia, quando Jesus estava a pregar, seus parentes irromperam no recinto para o prenderem. O que é surpreendente, levando-se em conta a noção tão propalada da proximidade dele à sua família, especialmente à sua mãe. Comumente, se pensa que Jesus era totalmente submisso a Maria e amoroso para com sua família. Textos apócrifos posteriores tentam passar a idéia de um relacioamento mais terno entre mãe e filho, que o culto católico medieval ressaltou inplicitamente, ao elevar o status de Maria. Mas, mesmo no Evangelho de João, enfatiza-se o relativo distanciamento espiritual entre o Mestre hebreu e sua gente, como se vê em Marcos. (Cf. João 7:1-8)
Por isso, normalmente é aceito pelos historiadores que esse "estranhamento" entre Jesus e seus parentes realmente existiu. Sua mãe e irmãos, por um instante, pensaram que ele estivesse 'fora de si" e saíram para o prender. Ao ser avisado que eles aguardavam do lado de fora para lhe falar, Jesus pergunta: "Quem é minha mãe e meus irmãos"? E responde cruamente: "Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe"!
Tal colocação do Mestre significou um processo de libertação. Ele não mais estava preso àquele clã onde nascera. Não que ele tenha brigado em termos definitivos com sua família, pois vemo-lo junto a seus irmãos em muitos outros momentos. Ele continua a ter sua mãe por perto - e mesmo incentiva o cuidado com os pais. Porém... Jesus já não era controlado por eles! Tanto é que por ocasião desse incidente, Jesus instrui aos seus partidários do seguinte modo: "Quem ama o pai ou a mãe, ou o filho e a filha, mais do que a mim, não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim" (Mateus 10:37).
Esse ensino de renúncia ao vínculo comunitário volta a aparecer em várias outros discursos, inclusive com um tom de alerta quanto a eventuais dificuldades que um seguidor do Mestre poderia enfrentar com seus amigos e familiares. (Por exemplo: Marcos 10:29; 13:12,13). De fato, pouco depois, Jesus seria literalmente expulso de Nazaré, por reiterar uma mensagem de igualdade, o que o levou a comentar: "Não existe profeta sem honra a não ser na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa!" (Marcos 6:1-6; Lucas 4:16-30).
Dessa forma, toda a sua pregação assumia um tom de desafio às estreitas normas de reconhecimento social então vigentes. Agora, todos aqueles que se aproximassem de Deus mediante a fé em Cristo participariam de uma nova família, não mais regida pelos laços de sangue ou de casta social, mas unicamente pelo vínculo do perdão e do amor ao próximo. Como é exposto em Mateus 23:8, "Todos vós sois irmãos", era a essência do que ele passava aos seus discípulos. Essa era uma mensagem extremamente libertadora e igualitária, à epoca, que mesmo hoje causa choque com as convenções socialmente impostas a todos nós. (continua...)